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Retrospectiva

Claudefranklin Monteiro Santos,
Mestre em Educação, historiador e escritor lagartense;
membro da ASI; professor da rede pública estadual em Sergipe;
colunista da Revista Perfil.
MANIÇOBA EM LAGARTO
Há anos a Maniçoba, prato que tem como base a folha da mandioca, é apresentada como comida típica, genuinamente lagartense. Embora não haja ainda muitos indícios comprobatórios, estudos recentes demonstram que a deliciosa iguaria, de origem indígena, teria chagado a Lagarto por volta do final do século XIX, certamente vinda da região norte do país, de modo particular do Estado do Pará (origem) ou da Região de Feira de Santana, Recôncavo Baiano.
Essa incógnita da vinda da Maniçoba para Lagarto tem despertado a curiosidade dos estudiosos, especialmente na área de história. A julgar pelo que já foi escrito sobre a História de Lagarto, o prato naturalizou-se lagartense por importação, certamente no comércio interprovincial de escravos ou até mesmo de uma iniciativa particular.
Theodureto Archanjo, atuante médico e engajado com a causa republicana, nascido em Lagarto, no dia 16 de setembro de 1886, foi um dos poucos a deixar um estudo formal sobre a Cultura da maniçoba, em 1899, a pedido do Sr. Martinho Garcez. O acesso à obra poderá ajudar os pesquisadores no sentido de sistematizar um histórico dessa importante iguaria lagartense por adoção.
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Em atendimento a Patrícia Regina
Colaboração: Floriano Fonseca
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SESQUICENTENÁRIO DE FALECIMENTO DO PE. JOSÉ ÁLVARES PITANGUEIRA (1858-2008)
04.11.2008
Nascido no povoado Hospício, berço dos Távoras, Convento (hoje Indiaroba), no dia 4 de dezembro de 1812, José Álvares Pitangueira era filho de Antônio Alves Pitangueira e Dona Margarida Francisca de San-José. Foi o primeiro redator do Recopilador Sergipano (com 20 anos), fundado pelo Monsenhor Antônio Fernandes da Silveira (1832). Em 1833 faz concurso à cadeira de Latim para a Vila de Lagarto, ocupando a vaga de seu primo o Padre José Francisco Gonçalves no dia 11 de junho. Sua ordenação ocorreu em 23 de abril de 1843. Entre os anos de 1848 e 1849, ocupou a cadeira no Parlamento Sergipano. Para Sebrão Sobrinho, Pitangueira foi um prodigioso, pois aos vinte eum anos, incompletos, já era professor do secundário, e, aos trinta, padre.
Eleito deputado provincial para o biênio 1858-1859, não chega a gozar da função plenamente, falecendo após grave enfermidade no dia 19 de fevereiro de 1858 na Bahia, aos 45 anos de idade, apesar dos esforços de recuperação da saúde feitos em Salvador, com recursos minguados, dadas as seguidas perseguições políticas que havia sofrido.
Na Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, Pitangueira atuou, também, como cronista e político na segunda metade do século XIX, em plena disputa nacional entre Liberais e Conservadores. Homem de posições firmes e colocações entusiasmadas, teve sua carreira política em Lagarto marcada pela perseguição implacável de seus adversários, que em grande parte não admitiam seu sucesso junto ao eleitorado lagartense.
Adalberto Fonseca, incansável cronista e pesquisador de Campo do Brito, radicado em Lagarto por volta dos anos 60, em seu livro História de Lagarto, tece vários comentários sobre o Padre Pitangueira. A propósito, é um dos estudiosos a usar a expressão Liceu Lagartense para se referir às ações educativas implementadas por ele entre os anos 1824 e 1854, em Lagarto.
Segundo Adalberto Fonseca, Pitangueira foi atuante nas várias instâncias da vida da Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto. Entre as várias atividades aqui expostas, ocupou a função de Conselheiro da Câmara de Consciência dos Vereadores, onde fora Presidente. Sua verve inflamada teria feito do Padre um colecionador de inimigos políticos, exemplo de Salvador Correa de Sá (Vice-presidente da Província) e o Dr. Benildes Romero (irmão de Sílvio Romero). Mesmo não chegando a alcançar a emancipação política de Lagarto, morrendo antes, foi um dos maiores defensores dessa idéia, tendo sido lembrado por ocasião do ocorrido no dia 20 de abril de 1880 e pela imprensa da época.
Autêntico representante dos Cabaús, ainda segundo Adalberto, Pitangueira chegou a ser preso por desavenças com o vigário da Vila de Lagarto, o contestado Padre Saraiva Salomão, com quem disputara o cargo de Presidente da Câmara de Consciência dos Vereadores. Na ocasião, outro padre, que mais tarde faria uma considerável passagem pela Vila, Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro, teria usado de sua influência junto a Sua Majestade o Imperador D. Pedro II para soltar Pitangueira, no que fora atendido à contento, para deleite da população lagartense que o venerava e para o acinte e acirramento do ódio do Padre Salomão.
Agradecimento a
Floriano Fonseca, bancário, historiador e músico lagartense.
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SERVO DE TODOS, SERVO POR AMOR - SACERDOTE DA HUMANIDADE
03/10/2008
Castelmassa, 15 de abril de 1942, nascia o mais lagartense de todos os italianos: Mário Rino Sivieri, filho de Osvaldo Sivieri e Natalina Mazzetto. Começava ali uma trajetória a serviço de Deus e dos homens, capaz de unir dois mundos completamente diferentes e duas culturas díspares. Que outra razão faria um jovem deixar o conforto de uma Europa bem sucedida para tomar duas decisões importantes: ser padre e aceitar o convite do Papa Paulo VI para pregar o evangelho no longínquo interior do Estado de Sergipe.
Há quem discorde da presença de Deus na História, mas a chegada de Dom Mário a Lagarto esteve envolta em mistérios, que talvez somente a religiosidade possa explicar. Há quarenta anos, num mês de maio (dia 15 do ano de 1968), assume a condição de vigário paroquial, numa cidade cuja padroeira é Nossa Senhora da Piedade. E essa marca mariana, como mariano é seu nome, vai lhe acompanhar por toda a sua vida: dor e regozijo. Após oito anos, torna-se Pároco, função que ocuparia com muita desenvoltura até a sua Ordenação Episcopal em 25 de maio de 1997. Vinte nove anos a serviço do povo de Lagarto.
Pensamos que já esteja saturado de tantas homenagens, as quais vêm recebendo nós últimos anos, especialmente depois que foi dar continuidade a sua missão na Cidade de Propriá-Se, na condição de Bispo Diocesano. No entanto, acredita-se, também, que elas vêem revelar todo o carinho e apreço que essa terra apresenta por sua pessoa, atestados no último dia 08 de setembro por ocasião da Missa Solene da Festa da Padroeira de Lagarto, quando, desprendido e afável, fazia questão de cumprimentar a todos que lhe acorriam, seja para uma foto de recordação, seja para uma benção episcopal.
Suas ações já se tornaram marcas registradas na História de Lagarto. Esta, que por diversas vezes lhe fora injusta. Seu trabalho sacerdotal, nesses quase trinta anos em sua presença, foi o exemplo de um autêntico representante de Jesus Cristo na terra, especialmente com esse jeito todo especial de agir mais e falar menos, típico da práxis cristã. No nobre ato de fazer com a direita, o que a esquerda não possa ver; e ainda que veja, seja mais uma oportunidade de glorificar o nome de Deus Nosso Pai.
À frente da comunidade lagartense, empreendeu inumeráveis trabalhos, não só de caráter estrutural, como também espiritual, tendo sido a “FAZENDA DA ESPERANÇA” - expressão maior de amor ao próximo - seu mais valioso “fazer-se um com o outro”, em quem soube reconhecer um “Jesus Abandonado”. Com esse carisma e ideal tão nobre, tirou das drogas e das prisões, os muitos jovens desenganados da sociedade, e de outras desse imenso e miserável país.
No campo educacional, à frente da Campanha Nacional de Escolas Comunitárias (CNEC), e em especial como Diretor do Colégio Cenecista “Laudelino Freire”, foi um idealizador e um pai, somando todos os esforços em prol do desenvolvimento intelectual de Lagarto.
Quarenta anos depois, não há como negar que ao abraçar essa missão de Jesus Cristo (vinda a Lagarto), colocou em seus ombros todas as suas dores e lamentações, tendo claro em sua vida sacerdotal a imagem do “Mestre” perseguido, caluniado e mutilado em causa do amor maior e da salvação dos homens. Incompreendido por diversas vezes, sentiu cravados, em especial em seu coração, os espinhos do cristianismo aceito por amor e por vocação - inspiração do Divino Espírito Santo. Mas também, como bem o sabe, experimentou ainda em Lagarto a glória e a alegria estampadas no rosto da Virgem Maria a contemplar o Jesus Ressuscitado.
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JOÃO DE SOUZA MARINHO EM LAGARTO (1933-1953)
05.07.2008
A passagem do português Monsenhor de Souza Marinho por Lagarto foi marcada por inumeráveis momentos de fé e de dedicação à obra catequética, ficando responsável pela reforma e ampliação da Igreja Matriz, no ano de 1938. Com a expansão arquitetônica lateral, a Matriz assume até hoje o formato de cruz. Curiosamente, em ambos os lados do prédio, em alto relevo, destaca-se uma Cruz de Malta, fazendo uma menção direta à cultura e à religiosidade portuguesa.
Em 1946, Monsenhor Marinho foi responsável pela realização do I Congresso Eucarístico Interparoquial. Entre as figuras relevantes presentes, merece destaque o bispo Dom José Gomes da Silva, Dom Avelar Brandão Vilela que havia sido nomeado bispo de Petrolina, Monsenhor Carlos Carmelo Costa vigário geral. O evento movimentou a cidade e fazia parte dos planos da Igreja no sentido de mobilizar catequeticamente os fiéis no sentido de arrebanhar-lhes para o seio da Igreja, à época dispersos.
No ano seguinte, Marinho esteve diretamente envolvido na criação do Educandário de Nossa Senhora da Piedade, hoje Colégio Nossa Senhora da Piedade. Em parceria com as Irmãs Franciscanas do Bom Conselho e com o poder público local, realizou no Município uma das ações educacionais mais importantes, atendendo prioritariamente a população carente que não tinha acesso à escola.
Na época em que Marinho foi Pároco da cidade, o mesmo pôde testemunhar um dos mais comoventes episódios da História de Lagarto: a explosão da Leste, hoje Bairro Matinha, onde à época estava sendo construída uma estrada de ferro que fora interrompida após a tragédia e que nunca fora terminada. O evento catastrófico teria ocorrido em plena Sexta-Feira Santa de abril de 1952, por volta de duas horas da tarde, causando rebuliço na população.
Durante sua estada em Lagarto, Marinho voltou a permitir a realização da tradicional Festa de São Benedito nas dependências da Matriz. A proibição foi feita em 1928 pelo Padre Germiniano de Freitas e teria sido baseada em critérios pessoais e preconceituosos.
Foi responsável também pela mudança da sede da Casa Paroquial para o prédio atual (Praça da Piedade), de onde se destacam os belíssimos azulejos portugueses até os dias atuais, em pleno estado de conservação. A antiga casa paroquial está sediada ao lado da Prefeitura Municipal e foi comprada à Igreja pelo Senhor Raimundo Nonato, importante comerciante lagartense de fumo.
Entre as passagens mais curiosas vividas pelo Monsenhor Marinho foi realização do casamento do Sr. Luiz Carvalho e a Sra. Valentina, ambos nonagenários. O primeiro em seu quarto casamento e ela, “moça velha”, com véu e grinalda. A julgar pela cerimônia, com direito a jumento carregando o noivo, não podendo este mais andar, Monsenhor Marinho foi um homem tolerante e piedoso, capaz de se render ao apelos do povo simples da gente do Lagarto.
Em outra ocasião, Marinho teria extinguido um costume antigo, e um tanto quanto macabro, entre as camadas pobres da população lagartense. Nas cerimônias de sepultamento, as pessoas que não possuíam condições de adquirir um esquife, recebiam o chamado caixão de caridade do Poder Público, o qual era devolvido, para novo uso, após o depósito do defunto na cova. Quando tal situação não ocorria dessa forma, usava-se a rede. Marinho alegou duas situações: a higiene e o constrangimento público dos familiares.
Fontes:
Arquivo da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Lagarto
FONSECA, Adalberto. História de Lagarto. Governo de Sergipe, 2002
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