O retorno
29/09/2009
Era certo que Apolônio Cerqueira não queria terminar os seus dias de vida batendo sola na tenda de Lili. O desejo de um lugar maior tirava-lhe o sono. Imaginava-se no Rio de Janeiro, desfrutando das suas belezas, ganhando dinheiro. O Lagarto era miúdo, sem graça, irritava-lhe o desalinho das ruas, o alto e baixo das calçadas, o capim da Praça da Piedade, enfeitada somente pelas cabras de seu Libo, curador de doença do mundo, enfim, um médico formado pela faculdade da vida.
A letargia da cidade só era quebrada pelas novenas da padroeira, ou no rebuliço das segundas-feiras. Cerqueira olhava os parentes com desdém, achava-os sem sonhos e sem esperança.
O dia da partida chegou. Cerqueira, entre choro e abraços, tomou o rumo do Rio de Janeiro. No agito das ondas, o Ita singrou pelo Atlântico até atracar, numa clara manhã de domingo.
A primeira parte do seu sonho estava realizada. O deslumbramento da cidade grande invadiu sua alma, ali viveria até a morte, arranjaria um bom emprego, pois, aprendera alguma coisa na escola de Joaquim Machado.
Os anos foram passando. O sofrimento do estômago vazio, dos quartos de pensão, da pneumonia quase transformada em tuberculose, aos poucos, foi dando lugar ao emprego de guarda-livros, cuja profissão exerceu definitivamente, não mais no Rio, porém, na cidade de Petrópolis. A honradez e a competência fê-lo amealhar um bom cabedal, por conta disso, adquiriu um belo carro: um Buick 1939. A partir da aquisição do carro, bateu-lhe a saudade do Lagarto, do cheiro de fumo das malhadas do Santo Antônio. Lembrou-se do bar de seu Pequeno, do armazém de Porfírio Martins, da tenda de João de Amélia, do reisado de Júlia de Memela e seu galante Bertinho Prata a recitar este verso:
“EU SOU UM POBRE SAPO
QUE PASSO A VIDA INTEIRA
DEBAIXO DE UMA PEDRA
NO RIO AQUI NA BEIRA.”
Dos olhos de Apolônio verteram lágrimas, não sabia explicar a estranha saudade. A cada dia, assuntava um pedaço de Lagarto. Vinha-lhe com força a figura de Frei Eliseu pregando suas Santas Missões. Nestas ocasiões, a igreja era iluminada a carbureto que, por seu cheiro forte, fazia arder as narinas dos fieis, porém, dava a luz que todos precisavam.
Cerqueira pretendia se mostrar uma pessoa próspera que havia enriquecido. No ofício de guarda-livros, sentia-se orgulhoso quando cortejado pelos bajuladores, principalmente os da família. Oportunistas que sonhavam em tirar um naco do seu dinheiro, sempre alegando dificuldades na vida.
Era uma tarde de quarta-feira de junho quando resolveu partir para o Lagarto. Desta vez, não enfrentando o balanço das ondas que, é bom lembrar, quase o matou de tanto vomitar. Pensou, dizia aos conhecidos: chegar ao Rio sem os bofes.
Foram oito dias pelas estradas de Minas e da Bahia. O solavanco da estrada arrebentou-lhe as cadeiras, mas, mesmo assim, a saudade o incentivou a voltar. Não veio só. Para acompanhá-lo, um motorista profissional, escolhido de tantos da Praça de Petrópolis. Moço bem falante, sotaque do Sul que, por força do ofício, veio parar nesses ermos.
Atravessou a Bahia, entrou no Sergipe, achou-se em casa. Logo estaria no Lagarto. Iria, de imediato, até a igreja e, diante de Nossa Senhora da Piedade, agradeceria pela viagem.
Chovia naquele mês de junho, o inverno era rigoroso. Já no Papagaio, o Buick atolou, reclamando a ajuda dos vaqueiros que desciam do Piauí. Desatolado, o carro tomou o rumo do Lagarto. No Sobrado, surgiu o inusitado: no meio da estrada lamacenta, imponente e majestoso, estava o pé de Tamarindo derramando sua galhada verdejante. Sustentada pelo tronco imenso, não permitia dez homens abraçá-lo.
O carro deslizou no selão avermelhado, o hábil motorista não pode contê-lo, somente o tronco da árvore o conseguiu. Cerqueira foi arremessado até o painel, enquanto o sangue vertia da sua testa. O motorista petropolitano, com o choque, perdeu a dentadura que se projetou na lama da estrada. O Buick perdeu a frente. Apolônio pensou em consertá-lo, mas no Lagarto não tinha como! Nem João Ford seria capaz.
Num ímpeto de raiva e arrependimento, Cerqueira segurando um lenço branco sobre a testa, que aos poucos era tingido pelo sangue, sentenciou: “MEU DEUS! QUE DIABO EU VIM FAZER NESTE FIM DE MUNDO, NUMA TERRA QUE NASCE GENTE CHAMADA DE DADÁ, DEDÉ, DIDI, DODÓ e DUDU, SÓ PODE DAR AZAR E PREJUÍZO”. Deram-lhe um banco para sentar, enquanto o motorista chafurdava na lama à caça da dentadura.
Dias depois, chegava o telegrama a Petrópolis:
“FIZEMOS EXCELENTE VIAGEM PT O BUICK SE ENCONTRA EM ARACAJU PARA MANUTENÇÃO PT AVISE A DONA GERTRUDES QUE SILVEIRA ESTÁ ADORANDO VG INCLUSIVE ATÉ ENCOMENDOU UMA NOVA DENTADURA COM UM DENTE DE OURO PT ABRAÇOS VG SEU QUERIDO APOLÔNIO PT”
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