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Colunista

OS SÓCIOS
Joaquim Prata Souza*
Para a empreitada se tornaram sócios. Se de um lado prevalecia a experiência, do outro a astúcia nas manicacas da Roleta. Somadas tais qualidades, uniram-se; Seu Menino da pipoca e Zé de Abílio.
Era natal, a banca de jogo tinha apenas uma roleta. Em vez de números, distintivos dos clubes de futebol: Flamengo, Vasco, Fluminense e daí por diante. Nas prateleiras, as prendas não passavam de latas de goiabada, de sardinha e minguadas carteiras de cigarro. Só para lembrar, cigarros sem filtro, já que tal requinte ainda não tinha chegado ao Lagarto. A banca de seu Menino ou de Zé de Abílio - aí fica a livre escolha - estava postada ao lado dos cavalinhos de Presídio, vizinho a barraca de João da Roda cuja especialidade era o pio agitado numa cumbuca de couro. A guisa de esclarecimento, João da Roda era investigador de polícia e, nas horas vagas, fazia suas incursões pelo mundo da contravenção.
O Natal esquentava na Praça Filomeno Hora. O clima de festa animava os bazares e as barracas de doces de Beata, Nininha e Maria de Teté. A ocasião por ser de fraternidade, não reclamava discriminação, por isso se misturavam negros, brancos, pobres, ricos, udenistas e pessedistas. Todos poderiam sugar, num grosso canudo, a gasosa de Tonho de Mirena ou degustar os amendoins com açúcar embalados em barquinhos multicoloridos. Logo ali, no palanque, a banda “Lira Popular” executava velhas valsas de Zequinha de Abreu. Sob a batuta de Chico de Zé Lourenço, tocava até a meia noite.
Os sócios não paravam. Um artifício foi criado para que a banca ganhasse três vezes mais do que o freguês. No vai-e-vem, bateu a fome. Seu Menino se comprometeu em ir primeiro. O jantar era ali mesmo na barraca de Ficiana fateira. Seu Menino, antes de sair, passou o rabicho do olho pela gaveta, ela estava cheia.
Saciado, voltou rápido à barraca. Ao abrir a gaveta, constatou que ela estava vazia, ali sobreviviam apenas algumas moedas e uma cédula de dois cruzeiros. O espanto deixou seu Menino empalidecido e os lábios trêmulos:
- Zé, cadê o dinheiro?
- Sumiu Seu Menino, chegou um homem do chapéu grande e quebrou a banca. Levou tudo!
- Por que não deu os brindes?
- Seu Menino, o homem só quis dinheiro.
Acabrunhou-se o velho sócio. Tomou o comando da banca. Sem ânimo, avaliou o prejuízo. Logo velhos fregueses foram chegando: Nêgo Uruba, Burrego, João Goela e o guarda Favorita, este último fardado e trazendo sobre os ombros um infindável número de divisas, deferência do prefeito sob a condição de não lhe aumentar os vencimentos. Sem muito tardar, a banca voltou a se fartar de dinheiro.
Conforme o combinado, Zé de Abílio logo saiu para o café, atravessou a praça e sumiu na porta da frente do casarão de Rubém. Mal sorveu o arroz com galinha, com o pé na frente e outro atrás, voltou à banca. Correu os olhos pela gaveta e no misto de agonia e desespero, falou:
- Seu Menino, pelo amor de Deus, cadê o dinheiro?
- Abílio, meu fio, uma desgraça! O homem do chapéu grande voltou, papou o dinheiro e levou as prendas.
O Natal ia minguando, apenas restavam alguns bêbados nas bodegas do Beco do Urubu e os sons dos boleros vindos dos puteiros do Feixe-de-Mola.
Sem dinheiro, sem prendas, a empresa faliu. Dissolveu-se a sociedade. Seu Menino, sem remorso, tomou o rumo de casa, lembrou-se da velha máxima: “Para o sabido, sabido e meio”.
No Natal seguinte, seu Menino tornou a vender suas incomparáveis pipocas e os deliciosos tabletes de doce de leite em caroço.
Zé de Abílio voltou ao seu bar, na rua D. Pedro II onde se lia na fachada “Bar Flamengo”. Ao fundo ouvia-se o ruído da velha roleta.
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*Defensor público e professor aposentado.
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RESSURREIÇÃO E MORTE
Joaquim Prata Souza*
Chovia fino no Oiteiro. Naquela noite, Nani tossia até verter sangue pela boca. Uma lassidão tomou-lhe o corpo. Nani se prostrou inerte sobre o chão do alpendre, e sucumbiu. Vevé, única filha mulher, viu o corpo inerte da mãe, chamou os irmãos e desfaleceu. Socaram-lhe dois dentes de alho nas narinas, e ornaram suas orelhas com galhos de arruda. Tudo para despertá-la. Mundinho e Nicanor, inconformados, colocaram a mãe sobre uma esteira e, com um lençol de madrasto, cobriram seu corpo.
A notícia chegou até os parentes. A casa se encheu. Emetéria, afilhada da defunta, meteu-se na cozinha para as providências do café. No vão do corredor, uma candeia alumiava a varanda, cumprindo, pela falta, o ofício da vela. Naquela noite de inverno, ouvia-se apenas o estridular das cigarras e o silvar dos insetos. Vez por outra, o chirriar das corujas.
Uma densa neblina esfumaçava a noite e cobria o lanço de casas que descia pela encosta do serrote do Ingá até as beiradas do Jacaré. Vadinho, recolhido no oitão da casa, assuntava o destino da mãe, seu desejo de ser enterrada num caixão de madeira, forrado de pano verde, com franjas douradas, tal qual Bebeto fizera para o Coronel Antero das Cacimbas. Na varanda, Vevé, recomposta, recebeu um toco de vela e o acendeu ao lado da mãe. Num grito histérico, desmaiou novamente. Rosentina, amiga inseparável, dosou o rapé até despertá-la.
Ao redor do corpo, as beatas começaram a encomendação. Por fim, o terço. Netinho, filho de Nicanor, puxou a saia da mãe e afiançou que a avó mexia o braço. Tal inconveniência, custou-lhe um beliscão e uma determinação para que acompanhasse a reza. No quarto mistério do terço, o inusitado: Nani, abruptamente, se agachou na esteira, seus cabelos crespos estavam desalinhados, dois tufos de algodão saltaram-lhe do nariz. Aturdida, soltou um grito lúgubre que invadiu a madrugada úmida. Pânico, choro, pessoas caindo, outras de joelhos louvando a Deus. Sá Marita anunciava os fins dos tempos.
No furdunço, Eleutério e Messias Sanfoneiro, no descampado da Santa Maria, latanharam-se nos espinhos e nas pedras pontiagudas que emergiam do solo encharcado. Nani, ainda no torpor do corpo, resolveu correr. Imaginou algo grave. Na tentativa inútil de acompanhar as pessoas, notou que elas, ao vê-la, mais corriam e gritavam.
Vevé se prostrou. Um calafrio tomou seu corpo. Uma dor extrema trespassou seu peito. Suas mãos suaram, aos poucos, foram arroxeando. Vevé tombou sem vida no canto da varanda.
Quando o dia foi clareando, todos já estavam refeitos, somente Vevé jazia sobre a velha esteira. Os irmãos cobriram-na com o lençol de madrasto e acenderam um toco de vela.
Ao cair da tarde, Vevé foi sepultada num caixão de madeira forrado com pano verde e enfeitado de franjas douradas.
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*Defensor público e professor aposentado.
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O INCÊNDIO
Joaquim Prata Souza*
Era mês de maio. O ano, 1957. Fazia frio naquela tarde noite. O Lagarto começava a escurecer. Na fábrica de bebidas Oriente, Zé Preá mudava a genebra de uma dorna para outra. O Salão escuro reclamava a claridade. Zé Preá acendeu um fifó que logo veio a despencar de um velho engradado, precipitando-se sobre o chão umedecido pelo álcool. Foi o bastante para que o fogo se proliferasse fábrica adentro. Em vão foram os esforços para contê-lo. Àquela hora ninguém havia percebido que algo extraordinário iria acontecer.
Na Rua da Glória, como de sempre, amontoavam-se algumas pessoas, principalmente na barbearia de João de Amélia. Na bodega de seu Almeidinha, Seu Euclides, marido de Dona Uda, reclamava do inverno. Os viajantes de Garanhuns jogavam dama na porta do Hotel São Jorge. Na bodega de seu Sérgio, Gracito pigarreava e tossia seco, tomando assento no velho caixão de velas, ali posto propositadamente para ele, pois seu resguardo não lhe permitia subir batentes. Cisma da idade.
Um grito quebrou o silêncio e se espalhou pela Rua da Glória: - “A fábrica do Seu Nozinho tá pegando fogo e vai pegar na bomba de gasolina de Dona Sinhazinha!”.
A notícia correu de casa em casa. O Lagarto estava prestes a ser destruído. Lá estava a velha bomba de gasolina, movida à manivela, à espera do momento fatal. Àquela hora, o sol já despencava atrás da Serra do Crioulo, ruborizando-se e pintando a tarde de um tom avermelhado. O rebuliço tomava conta da cidade espalhando-se pelas ruas da Glória, Simão Dias, Praça da Piedade, onde na casa dos Monteiros, o pão com leite foi suspenso e o café deixado pela metade.
O Lagarto era pequeno, um tico de Cidade. Começava pelo Alto da Gata findando nas bordas da Catita. No avalio de muitos, com o incêndio e a explosão da bomba de gasolina, tudo iria pelos ares.
A letargia do dia foi substituída pelo alvoroço das pessoas que, apressadas, se dirigiam para as bandas do Pacheco, Campo da Vila, outras para a Bica. Quanto mais longe fossem, melhor seria. Magotes de crianças, mulheres, idosos e jovens deixavam a cidade, fazendo lembrar a retirada funesta das populações européias, quando subjugadas a ocupação nazista.
Na confusão, orações e súplicas. Pelo lado da Bica, algumas pessoas rezavam a ladainha: - “Santa Maria" - a resposta imediata: “Rogai por nós”. "Vaso Honorífico, rogai por nós”.
Túlio Hora e sua esposa, perdidos, terminaram atolados na areia movediça da Bica; sua esposa, extremamente obesa, tinha lama até os joelhos, e por isso exclamou:
- Marido, tô atolada! – Túlio, concentrado na ladainha, respondeu:
- Rogai por nós.
Aturdido, como todos de casa, só dei por mim quando já estava na Itaperinha nos pertences de Santo da Jibóia, meu padrinho.
Do alto, podia-se contemplar o Lagarto ardendo em fogo. Era a Roma incendiada pelo gesto tresloucado de Nero.
Encostei-me no parapeito da janela e lastimei: - O que teria acontecido ao Cine Glória, à bodega de Seu Sérgio, sua cocada-puxa inigualável. Neste lamento, veio-me a imagem de Seu Lourenço do Mingau, do vatapá de Taviana, dos presépios de Olímpio Vieira e Zertina Araújo, a suculenta maniçoba de Ismênia, do puteiro de Mirena, as piabas de Zé Fubila e os dobrados de Tonho do Jegue.
O pior de tudo era o fim do reisado de Zé Pereira, ironizado pela voz da molecada: - “Seu Zé Pereira, seu reisado é de corno”. A resposta na língua: – “mais corno é quem vem apreciar”.
O incêndio varou a noite e foi perdendo sustança. Quando os bombeiros chegaram de Aracaju, a população já estava voltando à cidade. Para surpresa, o Lagarto estava intacto; tudo no seu lugar. Fatídico, somente o destino do velho telhado da fábrica, que ruiu carbonizado.
A cidade voltou à calma. Pelo meio da manhã já se ouvia o som da Radiofon tocando os melosos boleros de Anísio Silva e as canções de Nelson Gonçalves.
Ufa! Todos escaparam. O triste registro foi a despedida da saborosíssima laranjada “kalu”. Ainda a vejo na sua cor amarelada, sua tampinha verde que tanto valia nas trocas de fichas de refrigerantes. Entre a meninada, na sua inocência, servia de moeda.
Passado o tempo soube que Maninho de Zilá, fotógrafo de ofício, no afoito, tentou registrar o acontecido. Pena que as fotografias, ou não foram tiradas ou se perderam no tempo, tal a fábrica de bebidas Oriente. O Lagarto nunca teve outra igual.
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*Defensor público e professor aposentado.
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