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Extraído do Jornal Folha de Lagarto – Espaço Cultural

AH, ESSA JUVENTUDE, como diria Luiz Melodia, TRANSVIADA.
Por Rusel Barroso*

Observe no texto como a língua sofre agressões, de geração a geração, sem o menor direito de defesa. Trata-se de uma rápida conversa de um pai que vai pegar a filha no teatro, após uma apresentação. Observe, atentamente, a “riqueza” dos diálogos.

Estou ficando velho! Um dia desses, às 2h da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente na saída do show de Charlie Brown Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa. "E aí, o show foi legal?". A resposta veio de uma mais exaltada do banco de trás: "Cara! Tipo assim, de arrombar!". E outra emendou: "Bom pra caralho!".
Fiquei tipo assim, calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista.
Estou precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco, vamos precisar de tradução simultânea.
Para piorar ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da internet onde elas ficam horas e horas escrevendo “abobrinhas” umas para as outras, em código secreto. Tipo assim:

"kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh d+, sl. T+. Bjoks. – Jubys"., ou seja, "Cacete! Você também nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até mais. Beijocas. – Jubys”.
Jubys, que deve ser pronunciado"diúbis", é isso mesmo que você está imaginando, é a assinatura.
Só que o nome de batismo dela é Júlia, nome bonito, cujo significado é "cheia de juventude", que eu e minha mulher escolhemos, sentados na varanda, olhando a lua.
Pois Jubys é hoje essa personagem de cabelo cor de abóbora, cheia de furos na orelha, que quer encher o corpo de “piercings” e tatuagens. Estou ficando velho!
Outro dia tentei explicar para um grupo de adolescentes o que era uma máquina de escrever, pois nunca tinham visto uma. A melhor definição que consegui foi "é tipo assim, um computador que vai imprimindo letra por letra enquanto você digita". Pelos olhares, cada um fingiu não entender nada.
Voltando às garotas, a cultura cinematográfica delas varia entre a "obra" de Brad Pitt e a de Leonardo di Caprio. Há anos tento convencê-las a ver "Cantando na Chuva", mas sempre fica para depois.
Um dia, cheguei entusiasmado em casa com a fita de um filme francês que
marcou minha infância: "A guerra dos botões". Juntei toda a família para a exibição
solene e a coisa não durou nem 5 minutos. O guri foi jogar bola, Jubys inventou um trabalho de história sobre a civilização greco-romana que tem que entregar, tipo assim, “até amanhã senão perde ponto" e até minha mulher, de quem eu esperava um mínimo de solidariedade, se lembrou que tinha um compromisso com hora marcada e se mandou. Fiquei ali, assistindo sozinho e lembrando do tempo em que eu trocava gibi com os amigos da minha rua.
Uma amiga me contou que o filho de 10 anos ficou espantado quando viu um telefone de discar. Sabe telefone de discar? É tipo assim, um aparelho sem teclas, geralmente preto, com um disco no meio, todo furado, onde cada furo corresponde a um algarismo. Você enfia o dedo indicador no furo correspondente ao número que precisa registrar, gira o negócio até uma meia lua de metal e solta a roleta, que lá por dentro está presa a uma mola e faz ela voltar à sua posição inicial. Esse aparelho serve para conversar com outra pessoa, como qualquer telefone comum, desde que esteja, é claro, conectado na parede.
Eu sou do tempo em que vidro de carro fechava com maçaneta. E o Fusca tinha
estribo e quebra-vento. Não espalha, mas eu andei de Simca Chambord, de DKW, Gordini, Aero Willis e até de Romiseta. Não dá pra explicar aqui o que era uma Romiseta, só vou dizer que era tipo assim, um veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente entrava pela frente e a direção era grudada na porta. Procure na Internet, deve haver um site.
Tá bom, tá bom, confesso mais. Usei camisa Volta ao Mundo, casaquinho de Banlon, assisti à Jovem Guarda, ao "Direito de Nascer"... Mas é mentira essa história de que meu primeiro disco gravado foi em 78 rotações.
Há pouco tempo, o meu filho de 8 anos ficou fascinado quando contei que a TV, naquela época, era toda em preto e branco, ele "viajou" na idéia de que o mundo todo era em preto e branco e só de uns tempos para cá é que as coisas começaram a ganhar cores.
Acho que, de certa forma, ele tem razão. Tipo assim...

 

 

*Professor universitário, escritor e pesquisador.



 
   
 
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